O MESTRE DO BEBOP

(Abrindo o baú)

Houve um tempo em que os negros norte-americanos dominavam um estilo musical de tal forma, que chegavam a ser preconceituosos. Preconceituosos a ponto de não admitirem (ou só admitirem a muito custo) brancos¹ fazendo música nesse estilo, e isso só depois que ficasse mais do que provado a genialidade ou no mínimo um talento inquestionável do músico em questão. Preconceitos ianques à parte, não, não estou falando do Hip Hop. Falo sim do Jazz, a música da recessão, da pobreza e também do glamour e do cinema nos Estados Unidos na primeira metade do século passado (mesmo quando o cinema ainda era mudo, era indispensável a presença de um pianista ao lado do telão, que tocava standards² durante todo o filme).

Mas vou dar um pulo já para a década de 40, quando os músicos já não aguentavam mais tocar o estilo até então dominante nos salões de bailes: o swing. O swing exigia muito dos músicos com suas bandas de formações gigantescas, as chamadas big bands (15 pessoas na média), e na verdade, essa forma de se fazer jazz já estava um tanto quanto exaurida, então, um trompetista muito talentoso (Dizzy Gillespie) e seu companheiro de composições, o saxofonista Charlie Parker, (dois rapazes reconhecidamente bons naquilo que faziam, e que se tornariam maiores ainda com o tempo) decidiram revolucionar e criaram a forma mais quente e viajada de se fazer jazz até então: o Bebop.

O Bebop fez com o que os metais das bandas (que agora já eram com mais frequência grupos menores, como quintetos ou sextetos) ardesse como nunca se tinha ouvido: o som era acelerado, mas também viajado. Convidava para a dança mas impedia que a dança se realizasse, pois seus compassos no geral eram quebrados e seus andamentos imprevisíveis.

Gillespie se contentou em ser uma das pedras fundadoras do que veio a se chamar Jazz moderno? Não. continuou inovando e em 1975 soltou aquele que eu considero o disco maior do bebop: Afro-Cuban Jazz Moods. Disco que funde o jazz com a música cubana com tal sofisticação e peso, que nem a percusssão (fenomenal e infernal) de macumba tocada por Machito tira o caráter classudo da obra.

Afro-Cuban Jazz Moods é composto por quatro canções : “oro incienso y mirra”, “calidoscopio”, “pensativo” e “exuberante”. São só quatro, mas todas ótimas. Diria que é um disco curto e grosso (nem tão curto, seu tempo total de duração é de aproximadamente 32 minutos)

O estilo Bebop continuou encantando o mundo além de Afro-Cuban Jazz Moods, e para quem quiser conhecê-lo, é possível iniciar através da versão mais light (mas não pior) do anime japonês Cowboy Bebop, com ótima trilha sonora, feita por Yoko kanno & The Seatbelts.

NOTA 1: Com o tempo, o Jazz aprendeu que etnias e nacionalidades diversas só tinham a acrescentar: O grande exemplo foi Chet Baker, um dos maiores trompetistas que já existiu, além de disseminador do cool jazz, e que por sinal era branco. Além disso, as subdivisões de jazz permitiram fusões com os mais variados estilos: blues, bossa nova (!), música cubana, rock n’ roll (com a música fusion do mais que genial Miles Davis), entre outros estilos.

NOTA 2: Standards são temas clássicos do jazz, a partir dos quais os músicos criam coisas novas, geralmente na base da improvisação. Músicas como “what a woderful world” de Louis Armstrong e “love for sale” de Cole Poter são exemplos de standards.

Foto retirada do site: http://www.jazzvisionsphotos.com

2 Respostas

  1. Muito legal o texto, e principalmente a pesquisa realizada.

    Parabéns pelo Blog.

    Bruno

    http://www.longametragem.wordpress.com

  2. Obrigado pelo elogio, Bruno, sinceramente achei que ninguém fosse notar. Afinal hoje em dia não se encontra muitos ouvintes de jazz.

    Aproveitei e visitei seu blog sobre a sétima arte e gostei muito. Irei incluí-lo no blogroll do Tempo Livre.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: